Floresta de Laurissilva
&
Num estúdio da televisão ou a libertação
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Na Assembleia ou crinas ao vento
Sentia os pés frios. “Que desconforto”, pensou. A noite anterior também não ajudara, o irmão, de quem gostava tanto, ao jantar não parara de falar do Sporting. Aquilo era Sporting para cá, Sporting para lá, enfim... Agora, entalada entre o Branco e o Branquinho, olhou em redor. O Primeiro-Ministro falava, o Portas saltava da cadeira e, no mesmo segundo, sorria conspicuamente, assumia um ar ofendido, uma pose de Estado ou estalava os dedos pedindo a palavra ao Presidente da Assembleia. Nunca aceitara aquele estalar de dedos para chamar a atenção do Presidente da Assembleia. Parecia-lhe algo displicente, para não dizer outra coisa. Louçã alongava a voz... os baanncoos, sempre os baaancos… o segredo baaancário. Olhou-o de soslaio. As filas atrás estavam bem recheadas de deputados, e pensou: “Como seria um governo dele? Neste mundo, nesta Europa. Enfim!... «Diga, diga», Sr. Deputado... E Jerónimo de Sousa brandia uma multidão de desempregados e assaltava padarias. «Não, não vá por aí», respondia o Primeiro-Ministro. Olhou para ele, não o suportava, … novo, acutilante, arrasador... de verbo fácil, sempre disponível para recordar a passagem dela por outros governos… como se atrevia! Eu tenho um currículo de elevada qualidade, não andei por aí nessas universidades de crá-cá-cá. Voltou a olhar de soslaio, a voz dele ribombava... «porque o PSD»… dizia… que raiva… concentrou-se nos seus pensamentos e, lentamente, a assembleia desvaneceu-se…
...os cavalos corriam desabridamente, músculos tensos rodavam violentamente debaixo da pele grossa, ventas abertas ao vento. Com uma mão nas rédeas da quadriga, a outra volteava o gládio sobre a cabeça. A longa túnica branca esvoaçava violentamente, os lábios apertados, e aquele olhar de predadora preparada para a exterminação. Era a quarta vez que passava por ele. A quadriga rasgava velozmente a areia do circo Máximo. Nas primeiras passagens, ele perdera a rede, o escudo e o tridente. Só lhe restava o dardo. Vê-o a retesar o braço e a arremessar o dardo com violência, inclina-se para a direita, o ferro rasga-lhe o ombro superficialmente. Um rasto de sangue tinge a túnica. Desfere o golpe fatal, a cabeça dele volteia no ar e ela grita...«. Zás!.. Zás!»...
… Uma voz à sua direita diz-lhe: “Zás?” Era o Branco. À sua esquerda, Branquinho repete incrédulo: “Zás?” e acentuou,«gritou Zás, Dra.?!” Toda a assembleia a encarava estupefacta. Do alto do Olimpo, o Presidente projectou o nariz e ficou de boca aberta a olhar para ela. Sentiu que uma enorme e estranha paz se apoderava de si. No tribunal do seu pensamento, todavia algo estranho ainda a perturbava, e, num súbito impulso, disse: “Sr. Presidente, peço a palavra.” “Com que finalidade, Sra. deputada?” “Defesa da honra.” “Da honra?”, retorquiu ele. “Sim da honra, confirmo.” “Da sua bancada?”, perguntou o Presidente. “Não, do Primeiro-Ministro!”, respondeu-lhe.
Nunca na assembleia se tinha passado tal coisa! Não estava previsto no regimento. Sem deixar que a interrompessem, disse: “Este primeiro-ministro pertenceu a um governo anterior cujo segundo mandato se caracterizou pela indecisão. Aquando das primeiras eleições os seus adversários logo viram que não era fácil abatê-lo politicamente. O que se seguiu a essa constatação é conhecido de todos, desde então tem sido insultado, injuriado e vilipendiado. Quando forma governo, decide enfrentar o longo braço das corporações: férias a mais, processos que se arrastam, avaliações que não se fazem, medicamentos vendidos a peso de ouro. Enfim, um volumoso bouquet de insuficiências, de abusos, de incompetências. «Era preciso abatê-lo, mas,» continuou, « lentamente a economia cresceu, o deficit baixou, a confiança, embora titubeante, voltou e o povo começou a acreditar. Eis que, surgida das cloacas de Wall Street, se abate sobre o mundo a mais devoradora crise de que há memória desde os idos anos vinte.” “Tem de terminar”, disse o Presidente. “Termino já”, assegurou. “Sr. Presidente, eu quero afirmar que no lugar dele não teria feito melhor!» Pronto, pensou, está feito. E encheu os pulmões profundamente. Curioso, sentiu os pés confortavelmente quentes e a sua longa consciência espantosamente tranquila.
Não houve tumulto na assembleia. Um silêncio gélido percorreu as bancadas. O Presidente pensou, meneando a cabeça… “Nunca ao longo da minha carreira assisti a uma coisa destas.” E, sentindo necessidade de pôr termo àquilo, disse. “Está encerrada a sessão. Os nossos trabalhos continuarão amanhã após o jogo da selecção.” Um pensamento percorreu todos deputados: …. Com o Brasil é chato, mas os outros estão no papo… e saíram com um sorriso de Estado nos lábios.
Bettencourt de Lima
...os cavalos corriam desabridamente, músculos tensos rodavam violentamente debaixo da pele grossa, ventas abertas ao vento. Com uma mão nas rédeas da quadriga, a outra volteava o gládio sobre a cabeça. A longa túnica branca esvoaçava violentamente, os lábios apertados, e aquele olhar de predadora preparada para a exterminação. Era a quarta vez que passava por ele. A quadriga rasgava velozmente a areia do circo Máximo. Nas primeiras passagens, ele perdera a rede, o escudo e o tridente. Só lhe restava o dardo. Vê-o a retesar o braço e a arremessar o dardo com violência, inclina-se para a direita, o ferro rasga-lhe o ombro superficialmente. Um rasto de sangue tinge a túnica. Desfere o golpe fatal, a cabeça dele volteia no ar e ela grita...«. Zás!.. Zás!»...
… Uma voz à sua direita diz-lhe: “Zás?” Era o Branco. À sua esquerda, Branquinho repete incrédulo: “Zás?” e acentuou,«gritou Zás, Dra.?!” Toda a assembleia a encarava estupefacta. Do alto do Olimpo, o Presidente projectou o nariz e ficou de boca aberta a olhar para ela. Sentiu que uma enorme e estranha paz se apoderava de si. No tribunal do seu pensamento, todavia algo estranho ainda a perturbava, e, num súbito impulso, disse: “Sr. Presidente, peço a palavra.” “Com que finalidade, Sra. deputada?” “Defesa da honra.” “Da honra?”, retorquiu ele. “Sim da honra, confirmo.” “Da sua bancada?”, perguntou o Presidente. “Não, do Primeiro-Ministro!”, respondeu-lhe.
Nunca na assembleia se tinha passado tal coisa! Não estava previsto no regimento. Sem deixar que a interrompessem, disse: “Este primeiro-ministro pertenceu a um governo anterior cujo segundo mandato se caracterizou pela indecisão. Aquando das primeiras eleições os seus adversários logo viram que não era fácil abatê-lo politicamente. O que se seguiu a essa constatação é conhecido de todos, desde então tem sido insultado, injuriado e vilipendiado. Quando forma governo, decide enfrentar o longo braço das corporações: férias a mais, processos que se arrastam, avaliações que não se fazem, medicamentos vendidos a peso de ouro. Enfim, um volumoso bouquet de insuficiências, de abusos, de incompetências. «Era preciso abatê-lo, mas,» continuou, « lentamente a economia cresceu, o deficit baixou, a confiança, embora titubeante, voltou e o povo começou a acreditar. Eis que, surgida das cloacas de Wall Street, se abate sobre o mundo a mais devoradora crise de que há memória desde os idos anos vinte.” “Tem de terminar”, disse o Presidente. “Termino já”, assegurou. “Sr. Presidente, eu quero afirmar que no lugar dele não teria feito melhor!» Pronto, pensou, está feito. E encheu os pulmões profundamente. Curioso, sentiu os pés confortavelmente quentes e a sua longa consciência espantosamente tranquila.
Não houve tumulto na assembleia. Um silêncio gélido percorreu as bancadas. O Presidente pensou, meneando a cabeça… “Nunca ao longo da minha carreira assisti a uma coisa destas.” E, sentindo necessidade de pôr termo àquilo, disse. “Está encerrada a sessão. Os nossos trabalhos continuarão amanhã após o jogo da selecção.” Um pensamento percorreu todos deputados: …. Com o Brasil é chato, mas os outros estão no papo… e saíram com um sorriso de Estado nos lábios.
Bettencourt de Lima
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Do alto do monte - Conto de Natal
... Pacheco deixa arrastar a âncora, perde o norte e encalha. Com a água pelo pescoço, agita-se freneticamente, mas não pede ajuda. Da sua boca, houve-se, disparadas, as palavras: «....Sócrates maldito... Corrupt… Soc.... glu.... glu.... gl....». Depois, silêncio. Do alto do monte, o velho assiste à cena e abana a cabeça. Um pensamento, todavia, absorve-o... nunca mais acabam com a publicidade no canal público… «Comenda!!!», berra, olhando ligeiramente por cima do ombro. O fiel amigo, ouvindo a voz do dono, aproxima-se correndo nas quatro patas e agitando a cauda num frenesim. O velho pousa a mão direita sobre a cabeça do cão e faz-lhe distraidamente uma festa. «Comenda...» diz novamente... … agora que a golden share vai à vida, o Belmiro pode outra vez tentar vender aquilo aos bocados e fazer uma pipa de massa,» e conclui com tristeza... «O país afunda-se». O rafeiro desanimado volta a deitar-se em cima do jornal. O velho cogita. A vida passou depressa. Como num filme agitado, imagens apressadas percorrem-lhe o pensamento. Olha novamente para o sítio onde desaparecera Pacheco. Nunca gostara muito dele. A situação piorara depois daquela insistência obsessiva com que alimentara os ódios dela e a conduziu àquela derrota estrondosa. Olhou demoradamente para o mastro que boiava no sítio do naufrágio. Julgou ver um objecto que emergia. Semicerrou os olhos, concentrando-se na imagem. Pareceu-lhe ver um dedo espetado, depois um punho e, finalmente, o corpo de Pacheco emerge de rompante à superfície separando as águas com estrondo. O mar devolvia Pacheco à vida. Os pulmões de Pacheco congestionados recusam-se a aceitar o sopro da vida. Pacheco estrebucha e consegue, num ronco cavo, começar a respirar. Os olhos arregalados percorrem a costa em redor, ávidos de vida. De repente, Pacheco avista o velho no alto do monte, e, na sua agitação, confunde-o com Deus. Não era Deus, longe disso, mas, para Pacheco, aqueles cabelos desgrenhados e a cara bexigosa personificavam o Criador e o milagre do seu regresso à vida. O mastro arrastado pela corrente dá à costa e, com ele, Pacheco. Sentindo terra firme, Pacheco beija a rocha e enterra fundo as mãos na areia. De repente, ouve uma voz. Era uma voz sem som, que se lhe cravava no cérebro. Uma voz simultaneamente maternal e paternal, que lhe fazia lembrar recordações de infância. Maternal porque o aconchegava, o acarinhava e lhe dava segurança. Paternal porque se tornava rapidamente exigente, não lhe dava espaço para solilóquios e o encurralava. Esta era mesmo a voz de Deus. “Pacheco”, disse a Voz, “Eu amo todas as coisas, vivas ou inertes. A uma espécie dei consciência e responsabilidade. Nesta espécie não dei a todos as mesmas condições de vida. Tu nasceste privilegiado, com carinho, bens materiais e numa família de antigas tradições. Cresceste e fizeste-te homem. No meio onde vives, foste considerado e admirado por fazeres muitas concessões à liberdade de pensamento e, fartas vezes, sorri quando abocanhavas aquele teu correligionário mulherengo.” Mas”, continuou a voz, “algo explodiu dentro de ti e, de repente, dei contigo a vociferar, escumar e arrastar a barriga pela lama. Pacheco, Eu não te fiz réptil! Devolvi-te a vida. Sê Homem.” Pacheco chorou primeiro silenciosamente, depois convulsivamente, mas o rosto resplandecia. O choro era de alegria, e murmurou: “Deus é grande”. E, na costa, vinda não se sabe de onde, espraia-se a Ode à Alegria do compositor surdo.
Bettencourt de Lima
Bettencourt de Lima
E, agarrado ao balão, subiu aos céus.
Vasco pousou o jornal em cima da mesa e chamou o mordomo. «Edmundo» disse «traz-me um chá...preto». Não houve resposta. «Edmundo» chamou novamente elevando a voz. Silêncio. «Edmundo...» berrou, « mas que raio !!» disse, erguendo-se da cadeira. Quando chegou à copa viu o mordomo sentado com os ombros descaídos e as mãos penduradas ao longo do corpo. No chão estava o DN aberto num artigo de opinião - A porcaria. «Senhor», disse Edmundo «como foi possível escrever isto...? O senhor não é assim». E continuou lacrimejando, «eu sempre pensei que aquela porcaria que traduziu lhe ia fazer mal!» «Fazer mal?» tartamudeou Vasco. «Sim» respondeu Edmundo e continuou, «aquela dos infernos, aquilo é só horror, torturas e sangue vertido, e...eu...eu...sempre pensei que lhe ia fazer mal». Vasco ficou atónito. Como explicar a obra prima de Dante? Oh Deus, como era difícil ter de conviver com tanta alma simples. Populares...cogitou. E o lábio superior arqueou num trejeito irreprimível.
Não resisti.
Não resisti.
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